EURATÓRIA

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Na agenda europeia, da Grécia à Ucrânia, passando pelo TTIP

Enquanto não se inicia a nova fase deste Euratória – com secções renovadas e novas colaborações -, retomo hoje esta liça, começando por fazer uma espécie de lista do estado da arte da União Europeia. Assuntos não faltam, como é sabido, mas vamos tentar – num exercício que é natural e inevitavelmente subjectivo -, olhar para aquilo que há de mais premente, urgente, importante e incontornável (palavra, como se sabe, a evitar) na vida deste velho continente e da sua organização mais célebre e incompreendida:

  • A Grécia, claro. Entre a esperança trazida pela eleição surpreendente (não nas expectativas eleitorais mas muito mais na natureza do partido vencedor) do Syriza, o anúncio de um conjunto de medidas que rompem decidida e abertamente com o não concluído programa de resgate e o início de negociações difíceis e de incerto desfecho com as instituições e países europeus, de que a conversa entre os ministros das finanças grego e alemão é o mais recente e desagradável exemplo, a Europa sustém a respiração e aguarda. De certo modo, parece que Tsipras e Varoufakis jogam vários jogos ao mesmo tempo: ao polícia bom e ao polícia mau, com o segundo a lançar farpas e ironias (são mais sarcasmos, na verdade) e o primeiro a tentar permanentemente acalmar os interlocutores; ao gato e ao rato, sendo que o rato sabe que o gato não o quer comer por recear uma indigestão e ir por isso esticando a corda até insuspeitados limites; ao monopólio, com a ameaça de ruptura e a solução limite de recurso à emissão de moeda pelo banco central grego (após um grexit, reconheço, que me parece de resto ainda uma hipótese extrema e que a todos desagrada), moeda condenada a desvalorizar-se rápida e dramaticamente; à verdade ou consequência, com os líderes gregos a dizer e a desdizer(se), como aconteceu com a afirmação sobre a troika; e muitos outros jogos interessantes mas de difícil fruição na arena dos interesses económicos de Estados e organizações, com dívidas gigantescas por pagar e povos por contentar. Ao mesmo tempo, os sinais do lado das instituições e líderes europeus são também de impaciência e de algum radicalismo no tratamento do caso grego, ameaçando ainda mais a estabilidade da zona euro, cuja frágil recuperação se vem anunciando. A Grécia, claro; a Grécia, sempre. A seguir com atenção: as cenas dos próximos episódios serão muito interessantes.
  • A guerra na Ucrânia, que já causou mais de cinco mil mortes e parece ganhar em dimensão o que perde na atenção da opinião pública (pelo menos em países como Portugal, onde outros assuntos, como um certo preso preventivo ou o derby da capital, suscitam muito mais atenção): o cessar fogo formal de Setembro do ano passado é letra morta e bem morta; cada vez mais e mais sofisticado armamento cruza as fronteiras da antiga república soviética, fornecido aos dois lados da barricada pelos aliados russos ou ocidentais, falando-se já de possíveis fornecimentos de material bélico poderoso por parte dos americanos às forças armadas de Kiev. E o Ocidente parece continuar a jogar uma espécie de jogo duplo, a um tempo apaziguando o urso russo e em simultâneo impondo sanções e ameaçando com o seu reforço. Parece entretanto cada vez mais claro que dificilmente o país voltará ao statu quo ante: as zonas ocupadas (conquistadas) pelas forças separatistas e russófonas dificilmente voltarão ao controlo pleno do governo legítimo da Ucrânia. E nesse caso, o que há a esperar do futuro nesta vizinhança imediata da União Europeia?
  • O acordo transatlântico de investimento e comércio (cuja sigla inglesa, TTIP, é hoje uma marca reconhecida) marca passo. Emergem e instalam-se controvérsias, como a possível interposição de acções contra os Estados por parte de empresas privadas, ou a animosidade de sectores bem determinados dos dois lados do Atlântico, dos extremos do espectro políticos aos partidos eurocépticos. Mais comércio livre é uma ideia que desagrada a muita gente, apesar da Comissão Europeia e muitos dos adeptos do processo acenarem com asa vantagens económicas de uma zona euro-americana (ou, simples e simbolicamente, atlântica). A preocupação principal dos defensores europeus do acordo, parece ser a preocupação com a tendência americana de olhar na direcção oposta – para as margens do Pacífico e o que está para além do grande mar oriental. Iniciadas em 2013, vai sendo tempo das negociações do TTIP terem alguma evolução significativa, sob pena de ser tarde para o Presidente Obama beneficiar do respectivo desfecho como um dos marcos do seu mandato, já no ocaso, com eleições presidenciais em 2016.
  • A guerra contra o terrorismo islâmico é outro dos temas mais importantes na agenda europeia, a par da sua relação com a liberdade de circulação, mais ameaçada do que nunca. Uma Europa a braços com a ameaça do Estado islâmico e todas as outras com cunho “jihadista” não se pode dar ao luxo de descurar a segurança, mas não deve também, sob pena de dar vencimento aos que a ameaçam e pretendem ver radicalmente alterado o seu modo de vida, ceder na defesa dos seus valores e princípios.

Muitos outros assuntos europeus teriam aqui cabimento: a questão energética, a ambiental, a solução para as dívidas soberanas, o “quantitative easing”, o plano Junckers. Assuntos a tratar em breve, e que continuarão presentes nesta agenda de um continente e de uma organização que tem a ver com tudo e para a qual tudo conta, para o bem dos cidadãos europeus.