EURATÓRIA

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a moderação radical

caput I

São cada vez mais os conceitos que causam perplexidade e suscitam discussão. Por exemplo, muita gente repete quase ad nauseam o termo “politicamente correcto”.

Mas sabemos mesmo do que se trata? na página FB Europa – Paulo Sande fiz já algumas publicações sobre o assunto, aqui voltarei, em euratoria, ao tema.

Há outros. Publiquei recentemente um tweet a confessar-me liberal (como se fosse preciso, há anos que o escrevo e digo publicamente). Caiu-me em cima o céu e pesou-me por baixo a terra, acusado de várias coisas desagradáveis e de algumas excelentes; fiquei com a sensação de que muitos (alguns?) dos meus queridos leitores não fazem ideia do que é o liberalismo. Não que seja fácil – trata-se de um dos conceitos mais ambíguos da ciência política, sem uma colocação evidente nos referenciais mais comuns de uma perspectiva simplesmente ideológica: direita, centro, esquerda, extremos.

Aí está um assunto interessante, que espero poder tratar com largueza nos próximos tempos, entre outros, claro, que o nosso tempo vive a pretender fazer da singeleza complexidade, sem lograr senão complicar e esquecendo a importância da descomplicação.

mas começo com uma outra ideia que me é muito grata: a da moderação. melhor, da moderação radical no plano político.

Moderação, diz-me o grande dicionário da língua portuguesa, de José Pedro Machado, é o acto ou efeito de moderar, a virtude que consiste em evitar qualquer excesso, em usar de prudência e circunspeccção. É também o carácter do que não é excessivo, exagerado ou violento.

Prudência e circunspeção contra o que é excessivo e violento, eis a moderação. Virtus in medium est, escreveu há mais de 2400 anos um sábio – Aristóteles. A virtude está no meio, e virtude, já agora, é uma qualidade moral própria do humano, inclinado para fazer o bem. Mas não é qualidade inata…

O mesmo Aristóteles, tal como Platão, aliás, não deixou dúvidas sobre o modo como as virtudes se adquirem: pela repetição de actos correctos equilibrados, praticados na justa medida, longe dos excessos e radicalismos. Actos moderados, que geram o costume e criam a virtude.

É pela continuada prática de actos moderados que o ser humano contraria a sua natureza que, sejamos magnânimos, se não é a do homem lobo do homem que Hobbes veio um dia (muito depois de Aristóteles) a teorizar, está muito longe de ser a do bom selvagem de Rousseau. Sem a capacidade da moderação na prática dos seus actos quotidianos, dificilmente o ser humano escaparia às suas pulsões mais básicas, para a violência, a inveja, a cobiça ou o ódio – e as nossas sociedades não conheceriam a benevolência, a justiça, a paciência, a coragem, a empatia, a estabilidade, a misericórdia, a humildade e tantas outras virtudes notáveis que tornam a vida colectiva suportável.

E é por isso que defendo a moderação contra os extremismos e os radicalismos. No plano político, tanto me faz que sejam de direita (extrema) como de esquerda (extrema); são igualmente maus.

Resta explicar a necessidade da moderação radical: num mundo em que, cada vez mais, o extremismo ganha terreno, a defesa da circunspecção, da prudência e do equilíbrio, numa palavra, da moderação, não se podem fazer sem recorrer a algumas das armas dos extremismos:

Ser agressivo nas palavras e incisivo nos actos, pró-activo e assertivo; adequar as mensagens aos públicos tendo especial atenção à tendência crescente da recusa do diálogo e da busca quase unívoca dos argumentos que sustentam ideias pré-concebidas; não ter receio de confrontar ideologias, teses e movimentos radicais, fascistas ou comunistas e todos aqueles que pela sua natureza propiciem a divisão das sociedades, a desvalorização dos valores da democracia, da dignidade humana e da liberdade. O populismo? Sim, o populismo, também.

E porque não somos carneiros; e porque a falar baixo ninguém nos ouve — é na defesa radical do equilíbrio e do bom senso que defenderemos a civilização erigida ao longo de tantos séculos de sofrimento e recusa das causas desse sofrimento, da cultura das guerras na luta pela paz, contra a opressão e as desigualdades pela construção de sociedades mais justas e livres.

É uma utopia? Quantas realidades de hoje são os impossíveis de há alguns séculos? E afinal, de que vale a vida sem um sentido que dê sentido à vida?

Moderação radical: tenho dificuldade em entender que não seja fácil de entender a sua importância. E de agir em conformidade.


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