EURATÓRIA

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VAMOS ACREDITAR?

A abstenção ganhou as eleições na Europa. Não, isso não é uma contradição com o título desta crónica.

Há um dado novo nestas eleições europeias: pela primeira vez desde 1979, aquando da primeira dessas eleições, a participação aumentou em termos percentuais. Um aumento diminuto, é certo:

43,09% de participação contra 43% em 2009. Desde 1979, essa percentagem vinha sempre a descer: 61,99; 58,98; 58,41; 56,67%; 49,51%; 45,47% e 43% em 2009. Mudança de tendência? Veremos, mas não se pode dizer que seja um resultado encorajador.

Segue-se que, e sem contradição com a afirmação anterior, a direita ganhou as eleições na Europa. Por pouco, mas ganhou. O PPE continua a ser o maior grupo político no Parlamento Europeu. Por pouco, mas é. O problema é a instituição ter-se tornado mais difícil de governar, governo que decorre das regras estatutárias e da composição das respectivas forças, isto é, dos grupos políticos que a integram. Senão, vejamos:

 Em 751 deputados, o PPE fica com 214. Os socialistas têm 189. Os liberais 66, logo seguidos dos verdes, com 52. A esquerda unitária europeia terá 42 e os conservadores e reformistas 46. A partir daqui… está tudo (ou quase) em aberto. Dos grupos existentes, sobra o da liberdade e democracia, onde se concentram actualmente os eurocépticos e que teria, mantendo-se a actual estrutura e relação com os partidos nacionais, 38 membros. Mas há 41 não inscritos – por analogia com a situação existente – e sobretudo 63 novos eleitos de partidos que não pertencem a qualquer um dos grupos existentes. Como se repartirão eles? Juntam-se aos eurocépticos do EFD ou criam um novo grupo (pelo menos 25 deputados de 7 países distintos)?

 Os partidos políticos tradicionais foram castigados pelo eleitorado. Aconteceu em França, no Reino Unido, na Grécia (o Pasok!), em Itália, Espanha e, claro, Portugal, entre muitos outros. As pessoas buscam alternativas, querem ser ouvidas, refugiam-se em novas propostas, novos rostos e vozes, contra o cansaço dos habituais protagonistas, sempre os mesmos, com mais ou menos variações, sempre a dizer o mesmo, com mais ou menos honestidade. Mas fica, infelizmente, a convicção de que se generalizou a ideia de que as promessas eleitorais são só isso, sem qualquer correspondência com a prática (governativa) futura e que, por isso, não vale a pena escutá-las. Os partidos políticos tradicionais, se não querem passar de tradicionais a extintos, têm de conseguir rapidamente mudar as suas práticas, o seu discurso e a sua imagem. Não é fácil. Mas precisamos deles, a democracia precisa de partidos (o que não precisa é de facções, revisitem sff os federalist papers da revolução americana para uma explicação sobre a diferença).

 Segue-se, como próxima grande questão que definirá o verdadeiro papel do Parlamento Europeu na relação entre as instituições europeias, a decisão sobre o próximo Presidente da Comissão Europeia. Caso este venha a ser um dos dois propostos pelos principais vencedores das eleições – os socialistas ou o PPE, o mesmo é dizer Shulz ou Juncker -, o Parlamento terá marcado uma forte posição perante o Conselho e os líderes dos Estados-membros. Se, como aparentemente pretendem alguns desses chefes de Estado e de governo, com o notório caso de Merkel, o escolhido do Conselho Europeu for diferente desses dois e o Parlamento o aprovar, então (atrevo-me a dizer), a posição dos eurodeputados ficará muito enfraquecida, dificilmente podendo resistir ao avanço das pulsões intergovernamentalistas, nacionalistas e soberanistas.

 Os partidos extremistas surpreenderam em inúmeros países, como a França – um choque, a grande vitória de Le Pen -, Reino Unido, Dinamarca, Grécia (neste caso, com uma orientação diferente ideologicamente, pois se trata de um partido de esquerda, o Syriza). Noutros, contudo, como a Holanda, até retrocederam. Quase todos esses partidos são anti-União Europeia, com a notável excepção da Alternativa para a Alemanha que, embora com um resultado razoável de 6,5%, se diz sobretudo opositor do euro; alguns são manifestamente xenófobos, pretendendo erguer barreiras aos imigrantes, ou mesmo aos cidadãos da própria União – e as vozes nesse sentido chegam até de políticos supostamente mais moderados como… Sarkozy, o que demonstra a que ponto está o mainstream assustado com a erupção dos extremos e como, no pior reflexo possível, mima as suas propostas, quando não chega a ultrapassá-las. Parece haver mesmo até partidos próximos de orientações fascistas ou nazis, o que devia preocupar toda a gente.

 Eleições europeias? Foram-no pouco. O futuro é dos radicais? Citando um dito cuja autoria não recordo conheço muitos radicais (feitos) ministros, nenhum ministro radical; tenhamos esperança. A história repete-se? Claro, como farsa que não deixará de se tornar em tragédia. Mas ainda há tempo de mudar:

 Para que isso seja possível, os responsáveis políticos devem moderar as suas ambições pessoais. Entender de uma vez por todas a mensagem dos cidadãos. Reformar o sistema político, em particular no que toca ao exercício do poder, à escolha dos representantes, à participação das pessoas nas decisões, à transparência destas. Devem servir, não servir-se.

 Duas frases, a esse respeito, do ilustre senhor de Talleyrand: “a política não é senão um modo de agitar as gentes, antes de se servirem dela” e “quem não tem os recursos para as suas ambições tem todas as preocupações”.

 Sobre a União Europeia, numa frase: é preciso acreditar. Ela representa o principal obstáculo contra o regresso a um passado que devemos rejeitar com temor e desdém. Afinal, a maioria ainda é favorável à integração europeia.

 

Vamos acreditar.


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