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DIZER MAL DA UNIÃO EUROPEIA…

… está na moda. Basta ouvir os diferentes fora – radiofónicos ou televisivos -, consultar os blogs mais conhecidos, ler as opiniões dos colunistas e opinadores de serviço: a maioria zurze, sistemática ou episodicamente, na União Europeia.

 Tudo acontece, claro, porque a responsabilidade da austeridade é da troika; e a troika, para além do FMI que não é deste campeonato, é constituída pela Comissão Europeia e pelo Banco Central Europeu.

Repito: a responsabilidade da austeridade é da troika. Recordemos: Portugal pediu a ajuda dos seus parceiros perante uma situação de absoluta impossibilidade de recurso ao crédito externo (com os juros a 10 anos muito acima dos 7%) e, num raro compromisso entre os dois partidos do centro político (PS e PSD), negociou um pacote de medidas exigidas como condição para um resgate financeiro. Em troca desse acordo, recebeu a ajuda requerida.

 Repare-se que não importa se Portugal devia ou não ter pedido resgate ou, como pretende o antigo primeiro-ministro José Sócrates, se um novo PEC teria resolvido os problemas todos (diminuindo as taxas de juro para níveis sustentáveis). Nem sequer interessa para este efeito se o governo actual extravasou ou não as medidas previstas no resgate.

Tudo isso – repito, tudo isso – são decisões portuguesas.

 Como portuguesa foi a decisão que nos levou a aderir ao euro; ou a decisão de não fazer a reforma do Estado e de usar os abundantes fundos europeus para encher o país de auto-estradas; ou a de estimular a economia muito para lá do que as instituições europeias preconizavam (sim, refiro-me ao ano de 2009 em que, por coincidência, não houve a mesma política desenvolvimentista em todos os países do euro, pelo contrário, já para não lembrar que, outra coincidência, esse foi ano de santas eleições – legislativas, refira-se). Portuguesa, também, foi a decisão (ou a não-decisão, mas para o caso também tanto faz) de deixar os bancos sem ou com escassa regulação, oferecendo crédito ao desbarato, casas a quem não as podia pagar, férias a quem não tinha como as fazer, automóveis a toda a gente, independentemente dos recursos e da capacidade de ressarcir as dívidas (o que importava era o balanço).

 O que fez a Europa (e, frise-se, a Europa fez muitos disparates)? Obrigou-nos a fazer parte da União? Não obrigou. Obrigou-nos a aderir ao euro? Não obrigou. Obrigou-nos  a aumentar a dívida pública, a dívida das famílias, a dívida externa para lá de limites que, sabemo-lo bem, desvalorize-se ou não, são impossíveis de pagar (sem níveis de crescimento que não estão simplesmente ao nosso alcance)? Não obrigou.

 A Europa deu crédito a Portugal quando ninguém mais dava. Impôs condições, negociadas com os partidos que representam a maioria da população. Condições de reforma, de sustentabilidade das contas públicas, de austeridade. É um caminho errado? Talvez seja. Mas nesse caso são as instituições portuguesas que devem ser responsabilizadas. Não a Europa. Não o estrangeiro. Não os outros. Essa é uma sina que a nossa história bem regista e a que tanto devemos muito do atraso estrutural que ainda hoje nos aflige.

 Meus senhores, minhas senhoras: não digam tanto mal da União Europeia. Ainda vamos precisar dela.


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