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Margaret Thatcher : a virtude e os limites da vontade

O Papel, 11 de Abril de 2013

Por : Carlos Gaspar

 Margaret Thatcher é, com toda a probabilidade, o último Primeiro Ministro europeu cuja morte ainda foi notícia de primeira página da imprensa chinesa. Esse sinal, talvez mais do que qualquer outro, serve para a situar não só como um grande personagem da politica internacional, mas também como uma figura de transição.

 Só um grande personagem se pode apropriar dos epítetos mais pejorativos como títulos de glória. Parece ter sido Yuri Andropov quem lhe chamou “Iron Lady” para denunciar a sua intransigência anti-comunista : Margaret Thatcher adoptou esse “nome de guerr”a. Giscard d’Estaing, mais grosseiro, chamou-lhe “la fille de l’épicier” : a Primeiro Ministro era, e nunca quis deixar de ser, a “filha do merceeiro”, o outro nome do patriotismo inglês.

 Margaret Thatcher foi Primeiro Ministro durante onze anos cruciais, no fim da Guerra Fria. Em Maio de 1979, o Partido Conservador regressou ao poder com um programa de reformas radical, determinado a travar a inflação, desfazer a força dos sindicatos e pôr fim ao declinio do Reino Unido. Mas as suas políticas precisavam de tempo antes de produzir efeitos e, nos anos seguintes, a inflação continuou demasiado elevada, o produto interno bruto diminuiu, o desemprego ultrapassou os dez por cento e persistiu a instabilidade social.

 Dois anos depois, Margaret Thatcher era o Primeiro Ministro mais impopular desde Neville Chamberlain. Foi salva pela Junta militar argentina que, no dia 2 de Abril de 1982, decidiu invadir as ilhas Falkland – um arquipélago perdido nos confins do Atlântico Sul. A invasão foi uma surpresa para o Governo, que não estava preparado para responder. Os partidários da mediação diplomática, como Francis Pym, o Secretário do Foreign Office, tinham peso, e o Secretário de Estado norte-americano, Alexander Haig, queria evitar uma intervenção britânica, que punha em causa uma negociação crucial para pôr fim ao programa nuclear militar da Argentina. Thatcher não tinha dúvidas sobre o que fazer. A crise das Falkland invertia o paradigma da crise do Suez : o Reino Unido tinha a obrigação de defender a sua colónia e a Argentina foi condenada pelo Conselho de Segurança, no dia seguinte à invasão. Dois dias depois, Thatcher enviou uma esquadra para o Atlântico Sul e as forças da Junta renderam-se na capital das Falkland no dia 14 de Junho. No fim do conflito, as sondagens indicavam que mais de 80 por cento dos britânicos apoiavam o modo como o Governo tinha resolvido a crise. O Partido Conservador venceu as duas eleições gerais seguintes, em 1983 e em 1987.

 No momento da vitória, a Primeiro Ministro proclamou : “We have ceased to be a nation in retreat”. Mas o voluntarismo necessário para vencer a guerra das Falkland não alterou o pragmatismo indispensável para garantir o realismo da politica externa britânica. Três meses depois, em  Setembro de 1982, Margaret Thatcher foi a Pequim dizer a Deng Xiaoping que o Reino Unido queria permanecer em Hong Kong depois de 1997, a data em que expirava o arrendamento dos Novos Territórios adjacentes à colónia britânica. Deng disse Thatcher que a República Popular ia recuperar Hong Kong e acrescentou que “nem a China era a Argentina, nem Hong Kong era as Falkland”. Em 1985, Margaret Thatcher e o seu homólogo chinês, Zhao Ziyang,  assinaram a Declaração Conjunta sino-britânica sobre o futuro de Hong Kong, que confirmou a transferência de soberania para a China em Julho de 1997.

 A prioridade atribuida à “special relationship” com os Estados Unidos era um artigo de fé para Thatcher. A eleição do Presidente Ronald Reagan foi importante para consolidar a aliança anglo-americana e o Governo conservador esteve na primeira linha de defesa da instalação dos Pershing II da OTAN, contra uma forte campanha pacifista. Em 1982, os norte-americanos tinham acabado por apoiar a intervenção britânica nas Falklands e, no ano seguinte, Thatcher não protestou quando os Estados Unidos se esqueceram de prevenir o seu melhor aliado europeu antes de invadir   Grenada, um Estado membro da Commonwealth. Em 1986, Thatcher, contra a posição dos seus parceiros europeus, apoiou a intervenção norte-americana na Líbia, que partiu de bases militares no Reino Unido. 

 Thatcher foi crucial na definição da resposta de Reagan à  “Perestroika”, Contra o cepticismo dominante, a “Iron Lady” deu a sua benção a Mikhail Gorbachev. Depois de o ter recebido em Chequers, juntamente com Raissa Gorbachev, professora de Marxismo-Leninismo, a Primeiro Ministro disse ao novo Secretário-Geral soviético e ao Presidente norte-americano : “We can do business together”. A diplomacia britânica voltou a ser relevante na política internacional. 

 A vinculação transatlântica de Thatcher não tinha equivalente na sua politica europeia. Desde a adesão às Comunidades Europeias, a política britânica era dominada ficou dominada pelo problema da contribuição para o orçamento comunitário  – perto de mil milhões de libras por ano – considerada excessiva à esquerda e à direita. A Primeiro Ministro conservadora transformou esse tema numa questão política e e adoptou uma palavra de ordem – “We want our money” – que lhe custou um isolamento crescente no Conselho Europeu.

 A linha de Margaret Thatcher era uma espécie “gaullismo liberal”, uma contradição de termos que combinava o nacionalismo anti-federalista com uma posição anti-estatista : “We have not rolled back the fortress of the state in Britain only to see it re-imposed at a European level with a European super-state”. Todavia, essa posição não se traduziu numa ruptura, confirmando a interpretação de Lord Soames sobre a sua politica : “On Europe, she is an agnostic who continues to go church”.

 O Conselho Europeu de Fontainebleau, em Junho de 1984, resolveu a questão da prestação orçamental britânica, com o re-embolso de 66 por cento da contribuição anual em imposto  de valor acrescentado. Esse acordo tornou possível aprovar o Acto Único Europeu, uma prioridade britânica, e completar o alargamento das Comunidades europeias a Portugal e à Espanha, que o Reino Unido apoiara desde a primeira hora. Thatcher empenhou-se decisivamente na defesa do Acto Único e aceitou o voto por maioria qualificada para a execução do programa de liberalização da economia europeia. 

 A estabilização da posição britânica nas Comunidades Europeias foi decisiva para a recuperação económica do Reino Unido. Mas a revolução europeia de 1989, que abriu caminho à unificação da Alemanha, provocou uma crise grave.

 Em coerência com o seu apoio a Gorbachev, Thatcher defendeu uma estratégia de mudança reformista na Europa de Leste. Em 1988, a Primeiro Ministro teve um encontro com a direcção do Solidarnosc em Gdansk, durante a sua visita oficial à Polónia, que marcou o inicio do processo da “mesa redonda”, onde o regime e a oposição acordaram os termos da transição cujo resultado foi a deposição democrática e pacifica do partido comunista polaco e a queda do muro de Berlim.

 O entusiasmo da “Iron Lady” sobre o fim do comunismo não incluia a unificação da Alemanha. Pelo contrário, Thatcher defendia a democratização da RDA : tal como François Mauriac, gostava tanto da democracia e da Alemanha que preferia que existissem duas democracias alemãs.

 Para a Primeiro Ministro britânica, nada tinha mudado na “questão alemã” : “Germany is by its very nature more of a destabilizing than a stabilizing force in Europe”. Thatcher queria contra-balançar o regresso do “perturbador europeu” com uma aliança entre a Grã-Bretanha e a França, em parceria com a União Soviética. Num primeiro momento, Thatcher e o Presidente François Mitterrand uniram esforços para travar a estratégia de unificação do Chanceler Helmut Kohl e proteger a posição de Gorbachev. Mas o Presidente francês acabou por preferir um compromisso com o Chanceler alemão sobre uma nova etapa da unificação europeia e deixou o Primeiro Ministro britânico isolado.

 Depois do seu fracasso, a oposição de Thatcher às propostas franco-alemãs sobre a unificação monetária subiu de tom, quando declarou na Câmara dos Comuns que a Comissão Europeia queria “extinguir a democracia” e impor o federalismo “pela porta das traseiras”. Essa radicalização excessiva esteve na origem da demissão do Vice-Primeiro Ministro, Geoffrey Howe, que desencadeou o processo interno de substituição de Margaret Thatcher pelo seu ministro das Finanças, John Major, escolhido para dirigir o Partido Conservador em 28 de Novembro de 1990.

 Um ano depois, com a dissolução da União Soviética, a Guerra fria chegou ao fim, com a inesperada vitória da democracia liberal, e os “Doze” assinaram o Tratado de Maastricht, em que o Reino Unido ficou fora do programa da moeda única. Era o principio de uma nova era, da qual Margaret Thatcher já não fazia parte.

 

  

 


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